Por que alguns pacientes com DMRI progridem mais rápido do que outros?

25 de jun. de 2026

Mulher de meia idade sentada olhando para a esquerda

Um estudo recente publicado no JAMA Ophthalmology sugere que a resposta pode estar no sangue, e abre uma nova perspectiva sobre o acompanhamento individualizado da degeneração macular.

A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é uma das principais causas de perda visual em pessoas acima dos 60 anos, mas há uma pergunta que médicos e pacientes frequentemente se fazem: por que, diante do mesmo diagnóstico, alguns mantêm a visão estável por anos enquanto outros progridem rapidamente para formas mais graves da doença?

Uma pesquisa publicada em junho de 2025 no JAMA Ophthalmology, um dos periódicos oftalmológicos de maior prestígio no mundo, oferece pistas importantes sobre esse comportamento. E o caminho investigado não está nos olhos, mas na circulação sanguínea.

O que é a DMRI e como ela progride?

A DMRI afeta a mácula, a região central da retina responsável pela nitidez da visão. Nos estágios iniciais e intermediários, caracteriza-se pelo acúmulo de pequenos depósitos chamados drusas sob a retina, que muitas vezes não causam sintomas perceptíveis.

Quando a condição avança, pode evoluir para duas formas distintas: a atrofia geográfica (GA), em que há perda progressiva das células da retina em áreas bem delimitadas, e a DMRI neovascular, marcada pelo crescimento anormal de vasos sanguíneos sob a mácula. Ambas comprometem a visão central de forma significativa  e, até o momento, não há tratamento que reverta as células já perdidas. Por isso, identificar quem tem maior risco de progressão antes que o dano ocorra é uma das prioridades da pesquisa oftalmológica atual.

O sistema complemento e sua relação com a DMRI

O sistema complemento é um conjunto de proteínas que integra o sistema imunológico, com papel importante na defesa contra infecções e na eliminação de células danificadas. Há décadas, pesquisadores sabem que esse sistema está envolvido na DMRI, componentes do complemento foram encontrados nas drusas e nas estruturas que sustentam a retina.

O que ainda não estava claro era se a atividade desse sistema, medida no sangue ao longo do tempo, poderia antecipar quem está em maior risco de progredir. Era justamente essa lacuna que o estudo se propôs a preencher.

O que o estudo investigou?

O estudo acompanhou 325 pacientes com DMRI intermediária por um período médio de 3,9 anos, com alguns casos chegando a 8 anos de seguimento. A cada visita clínica, além dos exames de imagem habituais, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e mediram 25 fatores do sistema complemento.

O objetivo era correlacionar, de forma dinâmica, esses valores sanguíneos com o risco de progressão para formas avançadas da doença. Ao final do período, 34% dos pacientes haviam progredido: 20% para atrofia geográfica e 14% para a forma neovascular.

O que os resultados revelaram?

Os achados foram consistentes: pacientes com níveis mais elevados de determinados marcadores de ativação do complemento no sangue — especialmente as razões C3a/C3, C5a/C5 e sC5b-9/C5 — progrediram para formas avançadas da DMRI em menor tempo. As razões C3a/C3 e C5a/C5 foram especificamente associadas ao risco de atrofia geográfica.

É importante destacar que esses achados estabelecem uma relação estatística, não uma causalidade comprovada. Trata-se de uma hipótese promissora, que precisará ser validada por mais estudos futuros. O que os resultados sugerem é que o sangue parece sinalizar, de forma antecipada, uma inflamação sistêmica que culmina na lesão macular. O processo inflamatório que agride a retina não ocorre de forma isolada no olho,  ele tem raízes em uma ativação imunológica que circula por todo o organismo e que pode ser detectada antes de qualquer dano visível.

Por que essa descoberta importa para o paciente?

Os tratamentos anticomplemento disponíveis atualmente, como o SYFOVRE, aprovado nos Estados Unidos, são aplicados dentro do olho e atuam retardando o crescimento das lesões de atrofia geográfica. Eles representam um avanço importante, mas não recuperam células retinianas já perdidas.

O que este estudo sugere é que sinais de hiperativação do complemento já estão presentes no sangue antes da condição progredir. Isso abre a possibilidade, ainda em fase de investigação, de identificar pacientes de alto risco por meio de exames sanguíneos e, futuramente, intervir de forma sistêmica em fases mais precoces, antes que o dano seja irreversível.

É importante destacar que se trata de um estudo observacional, conduzido em um único centro, com 325 pacientes. Os achados não mudam, por ora, as condutas clínicas estabelecidas. Mas reforçam uma perspectiva que ganha cada vez mais espaço na oftalmologia moderna: a mácula como alvo sensível de um processo inflamatório que não se limita ao olho  e que deve ser avaliado no contexto da saúde do paciente como um todo.

O que isso significa no acompanhamento da DMRI?

Por enquanto, a principal implicação prática é reforçar o que especialistas em retina já defendem: o acompanhamento regular e individualizado é indispensável para quem tem DMRI, especialmente na fase intermediária, quando a condição ainda não avançou, mas o risco de progressão é real. A frequência dos exames, os critérios de monitoramento e as decisões terapêuticas devem considerar o perfil completo de cada paciente, incluindo fatores.

Na R&D Oftalmologia, acompanhamos de perto os avanços da pesquisa em retina e incorporamos esse conhecimento ao cuidado individualizado de cada paciente. A Dra. Letícia Rubman e a Dra. Karla Drummond são especialistas em retina pela Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo - SBRV e membros do Conselho Brasileiro de Oftalmologia - CBO, e avaliam cada caso considerando não apenas os achados do exame ocular, mas o contexto clínico completo do paciente.



Diretoras Técnicas R&D Oftalmologia. 

Dra. Letícia Rubman - CRM 142623 I RQE 75069 

Dra. Karla Drummond - CRM 181333 I RQE 78729

Referência

Lynch AM, Grove NC, Wagner BD, et al. Dynamic Risk of Systemic Complement Activation With Time to Progression to Advanced Age-Related Macular Degeneration. JAMA Ophthalmol. 2025;143(8):634–642. doi:10.1001/jamaophthalmol.2025.1608