Miopia infantil: quais tratamentos podem ajudar a desacelerar a progressão?

Menino de óculos em um parque olhando para a esquerda

Miopia infantil: quais tratamentos podem ajudar a desacelerar a progressão?

A miopia entre crianças e adolescentes tem aumentado de forma consistente nas últimas décadas  e com ela, a necessidade de compreender que hoje, além de corrigir o grau, existem tratamentos para desacelerar sua progressão. A escolha da abordagem mais adequada depende das características de cada criança e deve ser definida em conjunto com o oftalmologista.

O que é miopia e por que ela progride na infância?

A miopia é uma alteração visual que provoca dificuldade para enxergar objetos distantes. Ela ocorre quando o eixo interno do olho se alonga além do esperado, fazendo com que a imagem seja formada antes da retina  e não diretamente sobre ela.

Na infância, o olho ainda está em desenvolvimento. Por esse motivo, a miopia pode aumentar durante os anos escolares e continuar progredindo ao longo da adolescência. Quanto mais cedo ela começa, maior é o período em que poderá evoluir,  o que aumenta a possibilidade de a criança chegar à vida adulta com graus mais elevados. 

Graus mais altos, por sua vez, estão associados a maior risco de alterações oculares ao longo da vida, como descolamento de retina e maculopatia miópica.

Por que os casos de miopia infantil têm crescido?

Uma análise publicada em 2024 no British Journal of Ophthalmology reuniu 276 estudos com dados de mais de 5,4 milhões de crianças e adolescentes de 50 países. 

Os pesquisadores estimaram que a prevalência global nessa faixa etária passou de aproximadamente 24% em 1990 para cerca de 36% em 2023. Mantida essa tendência, a miopia poderá atingir aproximadamente 40% das crianças e adolescentes, mais de 740 milhões de jovens em 2050. 

Quando se considera a população geral, incluindo adultos, projeções de organizações internacionais estimam que quase metade de toda a população mundial poderá ser míope até essa data.

O crescimento dos casos está relacionado a uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Histórico familiar, maior tempo em atividades realizadas a curta distância e menos oportunidades de permanecer ao ar livre participam desse processo. 

Uma revisão sistemática publicada em 2025 no JAMA Network Open identificou que cada hora adicional de exposição diária a telas digitais está associada a um aumento de 21% nas chances de miopia,  dado que, isoladamente, não atribui a tela como única causa, mas reforça a importância do uso equilibrado e das pausas regulares.

Corrigir a miopia e controlar sua progressão são a mesma coisa?

Não. Os óculos monofocais tradicionais corrigem o grau e permitem que a criança enxergue com nitidez  e essa correção é indispensável. Mas ela não foi desenvolvida para interferir no crescimento axial do olho ou na velocidade de progressão da miopia. 

As estratégias de controle têm um objetivo diferente e complementar: reduzir o ritmo de aumento do grau durante a fase em que o olho ainda está se desenvolvendo. 

Isso não significa curar a miopia ou eliminar a necessidade de óculos, significa acompanhar sua evolução com mais critério e, quando indicado, adotar medidas que possam limitar seu avanço.

Quais estratégias estão disponíveis para o controle da miopia infantil?

As principais abordagens atualmente disponíveis incluem o uso de atropina em baixa concentração, óculos com desenhos ópticos específicos para controle da miopia e determinadas lentes de contato. Em alguns casos, o oftalmologista pode avaliar a combinação de estratégias.

A atropina em baixa concentração é um colírio que atua em vias envolvidas na regulação do crescimento ocular. Seu uso requer prescrição e acompanhamento oftalmológico regular, pois a resposta varia de criança para criança e o tratamento não deve ser interrompido sem orientação médica.

Os óculos para controle da miopia possuem desenhos ópticos diferentes das lentes monofocais (convencionais). A região central corrige o grau e proporciona visão nítida; ao redor dela, áreas específicas produzem um sinal óptico com o objetivo de desacelerar o alongamento do eixo interno do olho. 

Existem diferentes tecnologias disponíveis, e a eficácia depende também do uso regular pelo período recomendado. 

Em 2026, resultados iniciais de uma nova geração de lentes, a tecnologia DIMS TED, utilizada nas lentes MiYOSMART iQ, foram apresentados no congresso da ARVO (Annual Meeting of the Association for Research in Vision and Ophthalmology

Em um ensaio clínico randomizado com 196 crianças de 4 a 12 anos, o grupo que utilizou a nova lente não apresentou progressão média da miopia em 12 meses. Os resultados são promissores, mas ainda baseados em dados preliminares de congresso, estudos mais longos serão necessários para confirmar a duração do efeito.

Determinadas lentes de contato com desenhos de duplo foco ou multifocais também podem contribuir para o controle da progressão. Sua indicação depende da idade, da maturidade da criança e da capacidade da família de seguir os cuidados necessários para o uso seguro. 

Hábitos também fazem parte do cuidado

Sim, e merecem atenção independentemente do tratamento adotado. Permanecer ao ar livre está associado a menor risco de desenvolvimento da miopia: a luz natural parece estimular mecanismos da retina envolvidos na regulação do crescimento ocular. Recomenda-se, sempre que possível, incorporar aproximadamente duas horas de atividades ao ar livre à rotina diária, com proteção solar adequada.

Atividades prolongadas a curta distância, sejam telas, livros ou cadernos, devem ser intercaladas com pausas regulares e mudanças de foco para longe. O objetivo não é eliminar a tecnologia da rotina infantil, mas organizar seu uso de forma equilibrada.

Quando procurar avaliação oftalmológica?

A criança deve ser avaliada quando apresentar sinais como dificuldade para enxergar a lousa, aproximação excessiva de livros e telas, hábito de apertar os olhos para enxergar de longe, queixa de visão embaçada ou diagnóstico de miopia em um ou nos dois pais. 

A ausência de queixas não exclui alterações visuais. Algumas crianças não percebem que enxergam de maneira diferente ou não conseguem expressar a dificuldade. O acompanhamento regular com o oftalmologista é o que permite identificar a miopia precocemente, monitorar sua evolução e definir a conduta mais adequada para cada fase do desenvolvimento.

R&D Oftalmologia 

Na R&D Oftalmologia, cada criança é avaliada de forma individualizada, considerando o histório familiar, a velocidade de progressão do grau e rotina, para definirmos a abordagem mais adequada para cada momento do desenvolvimento visual. 

Se você tem dúvidas sobre a visão do seu filho (a), nossa equipe está pronta para orientar com responsabilidade e embasamento científico. 

Diretoras Técnicas R&D Oftalmologia.                                                                    Dra. Letícia Rubman - CRM 142623 I RQE 75069                                                  Dra. Karla Drummond - CRM 181333 I RQE 78729

Referências

Liang J, et al. Global prevalence, trend and projection of myopia in children and adolescents from 1990 to 2050. Br J Ophthalmol. 2024. doi:10.1136/bjo-2024-325427

Ha A, et al. Digital Screen Time and Myopia: A Systematic Review and Dose-Response Meta-Analysis. JAMA Network Open. 2025. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.60026

Holden BA, et al. Global Prevalence of Myopia and High Myopia and Temporal Trends from 2000 through 2050. Ophthalmology. 2016. PubMed