Implante retiniano aprovado na Europa restaura visão central funcional em pacientes com atrofia geográfica

Chip do implante retiniano PRIMA sendo manuseado por pinça cirúrgica, ao lado dos óculos inteligentes usados no sistema

O sistema PRIMA combina um pequeno chip implantado sob a retina com óculos inteligentes e representa o primeiro dispositivo aprovado para restaurar a visão central funcional em pacientes com atrofia geográfica causada pela degeneração macular relacionada à idade.

A atrofia geográfica (AG) é uma forma avançada de degeneração macular relacionada à idade (DMRI). Ela compromete progressivamente a região central da retina, responsável pela nitidez necessária para ler, reconhecer rostos e perceber detalhes importantes nas atividades cotidianas.

Até recentemente, os tratamentos disponíveis tinham como objetivo retardar a progressão da atrofia, mas não recuperar a visão central já perdida.

Em julho de 2026, esse cenário ganhou uma nova perspectiva. O sistema PRIMA, desenvolvido pela Science Corporation, recebeu a marcação CE, autorização regulatória que permite sua comercialização em 30 países europeus. Trata-se do primeiro dispositivo aprovado para restaurar a visão central funcional em pacientes com atrofia geográfica secundária à DMRI. Os primeiros implantes comerciais estão previstos para a Alemanha.

O que é o sistema PRIMA?

O PRIMA é uma prótese visual desenvolvida para pacientes com atrofia geográfica avançada e perda importante da visão central.

O implante mede apenas 2 × 2 milímetros e é posicionado cirurgicamente sob a retina, na região afetada pela atrofia. Apesar do tamanho reduzido, contém 378 pixels fotovoltaicos, capazes de converter a luz recebida em estimulação elétrica para as células da retina que permanecem funcionais.

Como funciona o implante retiniano PRIMA?

O sistema reúne três componentes: o implante sub-retiniano, óculos equipados com câmera e um pequeno processador.

A câmera captura as imagens do ambiente e as envia ao processador. Depois de processadas, elas são projetadas pelos óculos sobre o implante por meio de luz infravermelha. O chip converte essa luz em sinais elétricos que estimulam as células remanescentes da retina, gerando informação visual que segue pelas vias naturais até o cérebro.

O sistema é sem fio e as lentes dos óculos são transparentes, permitindo que o paciente utilize a visão periférica natural preservada simultaneamente à visão central proporcionada pelo dispositivo.

O que demonstrou o estudo clínico PRIMA?

Os resultados do estudo PRIMA foram publicados em outubro de 2025 no New England Journal of Medicine. O ensaio clínico acompanhou 38 pacientes com atrofia geográfica avançada durante 12 meses.

Entre os 32 participantes avaliados ao final desse período, 81% apresentaram melhora clinicamente significativa da acuidade visual. O ganho médio foi de aproximadamente 25 letras, equivalente a cerca de cinco linhas em uma tabela padronizada de avaliação da visão.

Outro resultado chama atenção para o impacto funcional da tecnologia: 84% dos participantes avaliados aos 12 meses utilizavam a visão proporcionada pelo PRIMA em casa para ler letras, números ou palavras. A visão periférica natural, por sua vez, permaneceu, em média, equivalente à observada antes do implante.

O PRIMA faz a pessoa voltar a enxergar normalmente?

Não. E essa é uma distinção importante.

O PRIMA não devolve a visão natural nem restaura completamente aquilo que foi perdido. Sua proposta é proporcionar visão central funcional na região comprometida pela atrofia geográfica, possibilitando a percepção de formas, letras, números e outros detalhes.

Os óculos também permitem ampliar as imagens, recurso que pode auxiliar o paciente na utilização da visão proporcionada pelo sistema.

Portanto, quando falamos em “restaurar a visão central”, estamos nos referindo à criação de uma nova percepção visual funcional em uma área na qual os fotorreceptores foram perdidos, e não ao retorno da visão existente antes da atrofia.

E a segurança do procedimento?

O estudo também avaliou os eventos adversos relacionados ao dispositivo e à cirurgia.

Foram registrados 26 eventos adversos graves em 19 participantes. Desses eventos, 21 ocorreram nos primeiros dois meses após a cirurgia, e 20 foram resolvidos dentro de dois meses após seu início.

Como em qualquer procedimento cirúrgico, indicação, possíveis benefícios e riscos precisam ser avaliados individualmente pelo especialista.

O implante PRIMA está disponível no Brasil?

Não.

A marcação CE permite a comercialização do PRIMA no mercado europeu, mas não equivale à aprovação pela Anvisa. Até o momento, o dispositivo não está disponível no Brasil.

Nos Estados Unidos, o PRIMA recebeu designações regulatórias da FDA, mas o processo para sua aprovação ainda está em andamento.

O que essa aprovação representa para o tratamento da atrofia geográfica?

A aprovação do PRIMA marca uma mudança importante no campo da reabilitação visual: pela primeira vez, um dispositivo destinado a esse perfil específico de pacientes recebe autorização para restaurar funcionalmente parte da visão central já perdida, em vez de atuar somente sobre a progressão da atrofia.

Isso não significa que o implante seja indicado para todas as pessoas com DMRI ou atrofia geográfica. A elegibilidade depende das características da atrofia, do comprometimento visual e de critérios clínicos específicos.

Ao mesmo tempo, o avanço reforça algo que permanece fundamental: o diagnóstico e o acompanhamento da DMRI desde seus estágios iniciais, quando outras possibilidades de cuidado e tratamento podem ser consideradas.

Acompanhando os avanços no cuidado da retina

Na R&D Oftalmologia, acompanhamos a evolução do conhecimento e das tecnologias que podem ampliar as possibilidades de cuidado dos nossos pacientes.

A Dra. Letícia Rubman e a Dra. Karla Drummond são especialistas em retina pela Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo - SBRV e membros do Conselho Brasileiro de Oftalmologia - CBO e avaliam cada caso de forma individualizada, considerando as evidências científicas disponíveis e as particularidades de cada paciente.

Diretoras Técnicas R&D Oftalmologia 

Dra. Letícia Rubman - CRM 142623 I RQE 75069

Dra. Karla Drummond - CRM 181333 I RQE 78729

Referências: 

Holz FG, Le Mer Y, Muqit MMK, et al. Subretinal photovoltaic implant to restore vision in geographic atrophy due to AMD. N Engl J Med. 2025;394(3):232–242. doi:10.1056/NEJMoa2501396

Science Corporation. European commercial launch announcement. July 2026. science.xyz/news/ce-mark